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Profissionais de Eventos e Profissionais de Mercado. Existe Diferença?

há 22 horas
3 min de leitura

A linha tênue entre o “profissional de palco” e o “profissional de mercado” em cyber security no Brasil, revela tanto oportunidades de visibilidade quanto riscos de desgaste de credibilidade. Os eventos nacionais frequentemente repetem os mesmos palestrantes, criando uma elite de figuras públicas. que nem sempre reflete a diversidade de quem atua no dia a dia da segurança cibernética.


O campo da segurança cibernética no Brasil tem crescido exponencialmente, impulsionado por ataques cada vez mais sofisticados, e pela necessidade de conformidade regulatória. Nesse cenário, emergem duas figuras distintas: o profissional de eventos, que constrói sua reputação em conferências e simpósios, e o profissional de mercado, que atua diariamente na proteção de sistemas e dados.


O velho dilema entre fama e prática. O profissional de eventos ganha notoriedade, constrói networking e se torna referência pública. Porém, corre o risco de ser visto como “teórico”, ou “celebridade” sem prática real, especialmente se sua produção acadêmica ou técnica não acompanhar a exposição. O profissional de mercado dedica-se ao cotidiano corporativo, enfrentando incidentes, compliance, auditorias e implementação de soluções. Muitas vezes tem menos visibilidade, mas acumula experiência prática que sustenta sua credibilidade.


Sim, existem riscos da fama em eventos como por exemplo:

  • Superexposição: repetição em múltiplos congressos pode gerar percepção de autopromoção

  • Desconexão da prática: se não houver atuação concreta em projetos ou empresas, a reputação pode ser questionada

  • Mercado restrito: empresas podem preferir profissionais menos midiáticos, mas com histórico comprovado de entregas técnicas


Estudos sobre capital simbólico (Bourdieu, 1986) e reputação profissional (Granovetter, 1973) mostram que visibilidade pública pode ser um ativo, mas também um risco. No campo da tecnologia, a literatura aponta para a importância da prática cotidiana como fator de credibilidade. No Brasil, a comunidade de cyber security tem se consolidado em torno de eventos como You Sh0t The Sheriff, Security Leaders, Mind The Sec, Simpósio Brasileiro de Cibersegurança, e diversos meetups regionais. Já a comunidade da hacking vem se concentrando em eventos como Hacking na Web Day, Bsides, H2HC, Sirena, Hack in Cariri Conference, entre outros.


Nos eventos analisados em 2025, observa-se repetição de palestrantes em diferentes conferências. Pesquisadores aparecem em simpósios acadêmicos, enquanto executivos de grandes empresas figuram em painéis corporativos. Essa repetição cria uma “bolha de palestrantes”, limitando a diversidade de vozes e experiências.


E qual o impacto no ecossistema brasileiro? Um ponto positivo é que garante consistência e qualidade, já que os palestrantes são reconhecidos. Já o ponto negativo é que limita a renovação de vozes, e a inclusão de profissionais que atuam diretamente em operações de segurança, resposta a incidentes e desenvolvimento de soluções. Sempre que eu publico no meu LinkedIn CFPs (Call for Papers) de eventos, costumo enviar para alguns profissionais que sei que estão com talks incríveis, mas a resposta é sempre a mesma "Pra que eu vou perder meu tempo se eu sei que não será aprovada, e teremos os mesmos palestrantes de sempre?". Realmente na pesquisa que fiz dos eventos de 2025, alguns nomes sempre aparecem na grade, parecendo que são "cartas marcadas" dos organizadores dos eventos, e isso cala profissionais que teriam muito a contribuir para todas as comunidades, seja de Segurança ou de Hacking.


Seguindo a análise, um breve comparativo dos dois tipos de profissionais:


O profissional de eventos

  • Benefícios: notoriedade, networking, acesso a oportunidades de consultoria.

  • Riscos: percepção de desconexão da prática, desgaste da imagem pela repetição em múltiplos eventos, questionamento sobre entregas reais.


O profissional de mercado

  • Benefícios: credibilidade técnica, experiência prática em incidentes e compliance.

  • Riscos: invisibilidade pública, menor reconhecimento fora do ambiente corporativo.


Por fim, o ecossistema brasileiro de cyber security enfrenta um paradoxo: os eventos funcionam como vitrine, mas concentram prestígio em poucos nomes, enquanto o mercado corporativo valoriza resultados práticos muitas vezes invisíveis. Para reduzir os riscos da fama e fortalecer a credibilidade, é necessário diversificar os palestrantes nos eventos, valorizar profissionais de campo que atuam em operações reais, e equilibrar teoria e prática, garantindo que a visibilidade reflita também a experiência cotidiana.


O equilíbrio ideal seria promover maior diversidade de palestrantes, incluindo profissionais de campo, para que os eventos reflitam não apenas a teoria e a fama, mas também a prática cotidiana da segurança cibernética. Isso reduziria o risco de que a notoriedade se torne um obstáculo à credibilidade profissional. A diversidade que precisamos nos eventos não são de gêneros, mas de conhecimento.


Acredito que neste artigo eu tenha respondido a pergunta que tanto me fazem sobre o motivo de eu ter sumido como palestrantes dos eventos. Assim como todos vocês, não submeto mais palestras, pois tenho a certeza de que não serão aprovadas. Assim me limito a eventos corporativos e convites recebidos.

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