O Desemprego e a Jornada do Recomeço: Entre a Dor da Demissão e os Obstáculos da Recolocação
- Felipe Prado

- 13 de jan.
- 5 min de leitura

Desta vez eu não vou falar de segurança. Este é um artigo falando um pouco sobre o desemprego, e de como isso nos afeta não só profissionalmente, mas pessoalmente também. Sim, eu passei por isso e não faz muito tempo. O meu maior sonho virou o meu maior pesadelo, e aquela empresa que um dia eu tanto sonhei em trabalhar, se mostrou a verdadeira face do meu maior pesadelo. Mas graças a Deus a página foi virada, e a experiência me fortaleceu demais. Isso é fato.. Sempre que nos levantamos de um tombo, levantamos mais fortalecidos. Isso o skate me ensinou aos 11 anos de idade, e nunca tive dúvidas sobre isso. A verdade é que a gente sempre segue em frente.
O desemprego é um fenômeno que transcende estatísticas e gráficos econômicos. Ele toca diretamente a vida das pessoas, afetando não apenas a renda, mas também a autoestima, a identidade e o senso de pertencimento social. Ser demitido não é apenas perder um salário; é perder uma rotina, um espaço de convivência, um propósito diário. A busca por um novo emprego, por sua vez, revela um cenário muitas vezes cruel, marcado pelo despreparo e até pelo desprezo de parte dos profissionais de recrutamento, que deveriam ser pontes de oportunidade, mas que acabam se tornando barreiras.
O choque da demissão é forte. A demissão costuma chegar como um golpe inesperado, e mesmo quando existem sinais, o momento em que se recebe a notícia é devastador. É certo de que bate aquele sentimento de rejeição, e muitos trabalhadores interpretam a demissão como um sinal de fracasso pessoal, ainda que as razões sejam externas, como cortes de custos ou reestruturações, e isso pode gerar até uma perda de identidade, pois o trabalho é parte fundamental da vida adulta. Ao perder o emprego, o indivíduo sente que perdeu também parte de quem ele é. Sempre que falo sobre perder o emprego lembro da música "Guerreiro Menino" de Fagner, onde ele canta "…Um homem se humilha, se castram seu sonho / Seu sonho é sua vida e a vida é o trabalho / E sem o seu trabalho o homem não tem honra / E sem a sua honra, se morre, se mata...", e realmente é uma sensação bem parecida com a canção. O impacto emocional bate forte, e ansiedade, tristeza e até sintomas depressivos podem surgir. A sensação de inutilidade é comum. Lembra daquela sensação de não querer sair da cama, não querer falar com ninguém? Pois é. E sem dúvida também bate aquele medo do futuro, aparece a incerteza sobre como pagar contas, sustentar a família e manter o padrão de vida, e acaba gerando uma enorme pressão psicológica. Não é brincadeira não…
Ser demitido é, de certa forma, viver um luto. Com a demissão chegam as sensações de:
- Negação: “Isso não pode estar acontecendo comigo”
- Raiva: “Por que eu? Eu me dedicava tanto”
- Barganha: “Se eu tivesse feito diferente, talvez não fosse demitido”
- Depressão: “Não vou conseguir outro emprego, não sou bom o suficiente”
- Aceitação: “Preciso seguir em frente e buscar novas oportunidades”
Esse ciclo emocional é natural e precisa ser reconhecido. Ignorar o impacto psicológico da demissão é minimizar uma dor real. Essa dor é bem real, pode apostar.
Depois do choque inicial e das lutas psicológicas diárias, vem a busca por um novo Emprego. Além da cultura do QI (Quem Indica), ainda existe um processo desgastante que o profissional precisará passar. Pensando no currículo, muitos candidatos passam horas revisando suas experiências, tentando traduzir em palavras o valor que podem oferecer, o profissional se depara com uma diversidade de plataformas digitais, onde sites de vagas e redes sociais profissionais se tornam aliados, mas também fontes de frustração, já que milhares de pessoas disputam as mesmas oportunidades. Depois chegam as entrevistas onde é o momento de se apresentar vem carregado de ansiedade. Cada entrevista é vista como uma chance única, mas também como um teste que pode reforçar inseguranças. Por fim as sucessivas rejeições, e receber “não” atrás de “não” mina a confiança e gera a sensação de invisibilidade.
Um outro ponto que vale destacar é o papel dos recrutadores. Diante do que passei, e de muitas conversas que tenho com amigos e mentorados acho que posso pensar que é quase que um padrão o:
- Despreparo técnico: Muitos recrutadores não compreendem a fundo as funções que estão contratando. Fazem perguntas genéricas, sem avaliar de fato as competências do candidato
- Desprezo humano: Há casos em que candidatos são tratados como números, sem qualquer empatia. Processos seletivos longos, sem retorno, deixam as pessoas em suspense por semanas ou meses
- Feedback inexistente: A ausência de retorno após entrevistas é uma das maiores queixas. O silêncio é interpretado como desrespeito
- Exigências irreais: Algumas vagas pedem habilidades múltiplas, quase impossíveis de reunir em um único profissional, desmotivando candidatos
- Falta de acolhimento: Em vez de enxergar o candidato como alguém em busca de recomeço, muitos recrutadores o veem como um incômodo
Esse desprezo por parte dos recrutadores não é apenas uma questão de etiqueta profissional. Ele tem consequências reais, como por exemplo o desgaste emocional (o candidato sente que não é valorizado, que sua trajetória não importa), desmotivação (muitos desistem de participar de processos seletivos, acreditando que não têm chances), perda de confiança (a autoestima, já abalada pela demissão, é ainda mais fragilizada) e o tal ciclo de exclusão (pessoas que não conseguem se recolocar rapidamente podem ser empurradas para a informalidade ou para empregos precários).
A realidade do mercado também não ajuda em nada no processo de recolocação. Hoje o mercado é mercado por uma alta competitividade com milhares de candidatos disputando poucas vagas, uma automatização em que plataformas digitais filtram currículos de forma mecânica, muitas vezes eliminando bons candidatos por detalhes, e sem dúvida nenhuma a desigualdade, já que pessoas mais velhas, mulheres e minorias enfrentam preconceitos velados, enraizados na nossa sociedade.
Diante deste cenário eu particularmente entendo que o processo de recrutamento precisa ser repensado, de forma mais humanizada. Os recrutadores devem lembrar que estão lidando com pessoas em momentos de vulnerabilidade, e é importante informar prazos, dar feedbacks claros e respeitosos. Em resumo vale reconhecer que cada candidato traz uma história e um potencial. Sejam mais humanos !!!!
Por fim, o desemprego é uma ferida social que vai além da economia. Ele afeta vidas, famílias e comunidades. Ser demitido é doloroso, e a busca por um novo emprego deveria ser um processo de reconstrução, mas muitas vezes se torna um caminho de humilhação. O despreparo e o desprezo de parte dos recrutadores agravam essa dor, transformando candidatos em números e ignorando suas histórias.
É urgente que o mercado de trabalho seja mais humano, que os processos seletivos sejam mais transparentes e que os profissionais de recrutamento compreendam seu papel social. Uma vaga preenchida não é apenas um contrato assinado: é uma vida que se reergue, uma família que respira aliviada, um cidadão que volta a se sentir parte ativa da sociedade.



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